Do Nume ao Destino: Notas sobre a Astrologia
Um texto introdutório sobre a diferença entre a astrologia moderna e a astrologia tradicional, a partir de conceitos como nume, destino e ordem cósmica. Uma reflexão sobre a necessidade de recuperar a cosmovisão antiga para compreender a astrologia para além da psicologização contemporânea.
ASTROLOGIAGERAL / FUNDAMENTOSINDO-EUROPEISMO
Mário Caneira Martins
4/6/20263 min ler
A astrologia na sociedade moderna enfrenta um grande desafio. Ela não nasceu como mera ferramenta de entretenimento psicológico, mas sim como uma ciência – aqui sinónimo de conhecimento – inscrita numa visão tradicional do mundo. Visão essa que está, em muitos aspectos, nos antípodas da visão dominante do mundo contemporâneo.
Convém esclarecer, desde já, o que este texto não pretende fazer. Irei deixar de lado qualquer tentativa de fazer uma história da astrologia. Não irei listar nem períodos nem os povos que contribuíram para a sua origem. A minha intenção é, ao colocar em análise a astrologia moderna e a astrologia clássica, desvendarmos alguns conceitos importantes que fazem com que a última tenha uma formulação diferente e, portanto, mais enriquecedora na minha opinião.
A astrologia moderna apresenta-se numa linguagem psicológica do indivíduo. E, com isso, torna-se comercial, genérica, e altamente centralizada na subjetividade. Claramente influenciada pelas correntes junguianas e suas sucessoras, a astrologia moderna coloca o indivíduo no centro do universo e atribui-lhe uma agência quase soberana sobre o próprio destino. Com isso, perde uma das características centrais da astrologia clássica: a dimensão preditiva.
No método clássico, ao contrário, ela torna-se uma disciplina mais técnica e mais delimitada. Por consequência, mais comprometida com juízos objetivos do que a astrologia moderna. Ela tolera menos a ambiguidade interpretativa do que a astrologia moderna. Mais do que isso, porém, importa a forma como ela coloca o indivíduo como parte de algo maior: destino, se assim lhe quisermos chamar. E é aqui que reside o ponto sobre o qual comecei por alertar logo no início deste texto. Para compreender a astrologia tradicional, é preciso recuperar a cosmovisão antiga de que ela nasceu. E, aqui, cosmovisão significa uma forma de compreender a ordem do mundo, do homem e do divino.
Entre os vários elementos que poderiam ajudar a compreender a astrologia pela via clássica, quero deter-me num em especial: o conceito de nume, em latim, numen.
No seu livro "Rome et ses dieux", Robert Turcan apresenta o nume como manifestação vívida do divino. A formulação é debatível e comporta nuances, mas serve-nos aqui como ponto de partida: o nume pode ser entendido como presença activa, força ou anuência de uma potência divina, por vezes distinta da figura pessoal da divindade. Tanto assim é que houve épocas em que se cultuava o Nume do Imperador de Roma, sem que isso constituísse propriamente um culto directo e pessoal ao mesmo.
Para simplificar, chamemos-lhe uma essência do divino que, na astrologia tradicional, se poderia manifestar através da ordem e do movimento dos planetas. Assim, Mercúrio não é apenas um astro: é também sinal e veículo do nume de Mercúrio; Vénus, do nume de Vénus; Marte, do nume de Marte; e assim sucessivamente. Importa recordar que os povos antigos possuíam ainda outra noção igualmente decisiva,, e que ajuda a compreender o que pretendo aqui explanar.
Muitas tradições antigas supõem uma ordem superior à vontade individual, uma estrutura do real à qual até os deuses, em certas narrativas, não escapam inteiramente. No reconstrucionismo indo-europeu, tem-se uma palavra, *artom, que podemos traduzir como algo próximo de verdade ou ordem cósmica. O conceito, na verdade, permite estabelecer analogias parciais com outros conceitos de ordem, verdade ou equilíbrio cósmico, como Tao, Ma’at, Dharma, Axé — embora sem os confundir. E, dentro dessa concepção, até os Deuses estão submetidos a essa ordem. Basta dizer que Atena foi gerada a partir da cabeça de Zeus, depois de a sua mãe, Métis, ter sido engolida quando o rei dos Deuses descobriu que daquela relação nasceria uma deusa mais poderosa do que ele próprio. Exemplos semelhantes não deixaremos de encontrar nas várias mitologias, de Sagres aos Himalaias.
A astrologia tradicional só se torna plenamente inteligível quando admitimos que, para os antigos, a vida humana não era pensada em termos de autonomia absoluta. Havia destino. Havia limites. Havia também margem de acção, mas essa margem não abolia a estrutura do real. Nesse contexto, os movimentos planetários não são meros estímulos psicológicos: são sinais inscritos numa ordem maior, portadores de promessas, tendências e determinações. Importa ainda distinguir os planetas dos próprios deuses. O astro não é simplesmente a divindade; é antes o seu sinal, veículo ou expressão celeste
Compreender esta cosmovisão tradicional permite-nos reconhecer, antes de mais, que o indivíduo não existe isolado, mas inscrito numa teia humana, histórica e, se quisermos, metafísica. Permite-nos também reconhecer formas de determinismo que os antigos, à sua maneira, já intuíram: familiares, sociais, linguísticas, talvez até biológicas. Reduzir a astrologia a uma linguagem psicológica empobrece-a, porque transfere para o indivíduo uma soberania que raramente possui. Por fim, talvez o mais importante: se aceitarmos que a vida não é matéria totalmente informe, mas realidade já em parte dada, então conhecê-la pode ser menos fonte de ansiedade do que de reconciliação. A astrologia deixa, assim, de servir para inventar quem somos e passa a servir para reconhecer quem nos cabe ser.
Recuperar a astrologia tradicional exige, antes de mais, recuperar a visão do mundo que a tornou possível. Este é, portanto, o meu primeiro texto sobre astrologia. Espero que seja apenas o primeiro de muitos.
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