O moralismo ocidental e a ilusão da superioridade

Este texto descreve como o Ocidente recicla a velha lógica de ortodoxia e heresia em linguagem secular, convertendo diferenças em falhas morais. Ao mesmo tempo, defende uma alternativa: recuperar a verticalidade (ordem, vocação, criação) para que a diferença não seja imediatamente tratada como impureza. Assim: por um lado, tenta descrever a genealogia do moralismo que permite converter actos em sinais totais de pureza e impureza; por outro, procura recuperar uma verticalidade (ordem, vocação, criação) que não cabe na grelha binária da acusação.

INDO-EUROPEISMOOCULTISMO MODERNO

Mário Caneira Martins

3/1/20269 min ler

Nos últimos dias deparei-me com um texto que usava Cristiano Ronaldo como símbolo da suposta decadência moral e ética face aos valores do Ocidente. Confesso que tenho respeito pelo seu percurso e pelo papel que desempenhou na projeção de Portugal no mundo. O autor via no simples gesto de CR7 vestir um traje tradicional da Arábia Saudita uma capitulação ética perante um regime autocrático, uma espécie de metáfora viva de uma degradação individual face aos valores de uma “Europa civilizada”. Enumerava violações de direitos humanos, ausência de democracia liberal, repressão de minorias, uso extensivo da pena de morte e, para fechar o círculo, associava Ronaldo a figuras como Donald Trump, apresentando-o como inimigo da democracia.

À primeira vista, pode parecer estranho trazer este episódio para um espaço de reflexão espiritual. Não é, porém, o jogador que me interessa, nem sequer um regime específico. O que está em causa é o enquadramento moral que transforma um gesto simbólico numa alegoria civilizacional. O impulso de julgar a partir de uma suposta superioridade ética não surge do nada; tem raízes profundas na história espiritual do Ocidente.

Democracia, representação e efeito de manada

Quando o Ocidente fala em “defesa da democracia”, convém perguntar de que democracia está a falar. O modelo dominante é o da democracia liberal representativa, em que o poder é exercido por representantes eleitos e não diretamente pelo povo. Isto não é, em si, ilegítimo, mas cria uma distância estrutural entre decisão e participação que sempre alimentou debate filosófico. O cidadão é chamado a legitimar ciclos de poder que raramente controla.

Já na Grécia antiga, Aristóteles advertia para o risco de a democracia degenerar em demagogia: o governo das paixões coletivas manipuladas por líderes habilidosos. O problema não está na participação popular, mas na facilidade com que emoções tribais podem ser instrumentalizadas. A psicologia de grupo, o efeito de manada, não desapareceram com a modernidade; apenas ganharam meios técnicos de amplificação, das sondagens às redes sociais.

Este quadro institucional e psicológico é o cenário onde o moralismo contemporâneo atua: elites políticas e culturais disputam a gestão das paixões, reivindicando para si a guarda dos “verdadeiros valores” da democracia. Aqui começa a ilusão mais perigosa: a de que a Europa seria portadora de um padrão moral universal ao qual o resto do mundo deve conformar-se.

A matriz espiritual do universalismo europeu

A Europa não nasce como espaço neutro. Desde o Império Romano, construiu-se em ciclos de expansão, guerra e afirmação de superioridade cultural. Roma universalizou a sua lei como medida de civilização. Quando o império político caiu, uma nova força unificadora emergiu: o cristianismo.

Essa cosmovisão trouxe contributos profundos: dignidade da pessoa, valor da consciência, centralidade da moral. Mas consolidou também uma estrutura mental específica: o mundo dividido entre verdade e erro, ortodoxia e heresia, salvação e condenação. Durante séculos, espiritualidade e poder político caminharam entrelaçados, moldando a forma como o continente passou a compreender a si mesmo e ao outro.

Com o Iluminismo, a Europa declarou-se racional e laica. Substituiu o fundamento teológico por fundamento secular: a razão, o progresso, os direitos humanos. Não abandonou, porém, o impulso universalizante. Onde antes se proclamava a verdade de Cristo, passou-se a proclamar a verdade da Razão. Onde antes havia hereges, passaram a existir atrasados, irracionais, incivilizados.

O ponto central não é religioso, mas estrutural. A matriz judaico-cristã introduziu no Ocidente uma leitura intensamente moralizada da realidade. O mundo passou a ser interpretado através de dicotomias absolutas: justo e injusto, salvo e condenado, luz e trevas. A modernidade, ao afastar-se da teologia, não eliminou essa estrutura binária; apenas a traduziu para outra linguagem. Onde antes havia pecado, passou a haver atraso civilizacional. Onde antes havia heresia, passou a haver desvio ideológico. Onde antes se falava em salvação da alma, passou-se a falar em redenção social.

O discurso contemporâneo sobre “valores universais” carrega, muitas vezes sem o saber, essa herança simbólica. A diferença deixa de ser apenas diferença e passa a ser falha moral. A divergência deixa de ser debate e torna-se suspeita ética. É esta lógica que permite transformar o gesto de vestir um traje tradicional num ato de impureza política.

Oprimidos, opressores e o novo moralismo

Ao longo do século XX, a estrutura binária assumiu uma nova forma: a leitura da realidade através da oposição entre oprimido e opressor. Esta lente revelou injustiças reais e profundas: colonialismo, racismo, exploração laboral, desigualdades estruturais. Teve, por isso, uma função transformadora e necessária.

O problema começa quando essa dicotomia deixa de ser ferramenta de análise e passa a ser explicação total da realidade. A complexidade humana é reduzida a categorias morais fixas. O indivíduo deixa de ser pessoa concreta para se tornar representante simbólico de um grupo: homem branco, privilegiado, colonizador; ou, no polo contrário, vítima intocável, cuja experiência se torna critério absoluto de verdade.

Nesse ponto, pouco importa o espectro ideológico. A direita pode instrumentalizar a diferença para excluir, demonizar minorias, reforçar hegemonias. A esquerda pode instrumentalizá-la para acumular capital moral ou poder político, abandonando grupos e causas quando deixam de servir a narrativa. Em ambos os casos, a diferença deixa de ser encontro e torna-se arma.

Quando tudo é lido como luta permanente entre campos éticos absolutos, o diálogo torna-se impossível. O moralismo substitui a reflexão, o rótulo substitui o argumento, a excomunhão substitui a crítica. Em vez de perguntarmos “o que está realmente em jogo?”, perguntamos “de que lado estás?”.

Trabalho, culpa e perda da ordem cósmica

Até aqui, descrevi sobretudo o mecanismo moral: a tendência para converter diferença em falha e acto em impureza. A questão seguinte é mais difícil e mais fundamental: que visão do mundo permite que este mecanismo se torne total? É aqui que entra a perda da verticalidade.

Muito antes desta modernidade moralizante, o espaço indo-europeu conheceu visões do mundo enraizadas na ideia de ordem cósmica. Não se tratava apenas de religião institucional, mas de uma cosmologia em que sociedade, natureza e espiritualidade formavam um todo coerente. Nas tradições védicas, germânicas ou greco-romanas, o universo era compreendido como equilíbrio delicado entre forças de ordem e caos. A vida humana tinha lugar dentro dessa arquitetura.

A divisão tradicional em funções — sacerdotal, guerreira, produtiva — era originalmente simbólica. Representava disposições da natureza humana: contemplativa, ativa, criadora. A ideia central não era a opressão estrutural, mas a correspondência entre vocação e ordem. Cumprir a própria função com excelência era também ato espiritual. Bem e mal eram entendidos menos como categorias morais absolutas e mais como estados de equilíbrio ou desequilíbrio. Ordem e caos, mais do que santo e pecador.

Com a consolidação da matriz bíblica, o trabalho adquire uma tonalidade diferente. No Génesis, aparece associado à condição pós-queda: “com o suor do teu rosto comerás o pão”. O sofrimento passa a integrar a condição humana como consequência de uma ruptura primordial. Introduz-se a centralidade da culpa e da redenção. A vida deixa de ser participação numa ordem cósmica e torna-se travessia moral rumo a uma salvação futura.

A modernidade secular, mesmo ao rejeitar o horizonte transcendente, conserva parte dessa lógica. A história converte-se em palco de redenção social. O progresso assume tonalidade quase escatológica: a promessa de um futuro onde a injustiça será finalmente purgada por uma combinação de técnica, revolução e boa vontade.

Colonizar o outro: da espada ao discurso

Se a realidade é lida como tribunal e a história como julgamento, a tentação seguinte é inevitável: colonizar o outro em nome do Bem. Quando Saramago falava da tentação de “colonizar o outro”, referia-se também a isto: à imposição de uma forma de consciência, de uma grelha moral única. Colonizar é exigir que o outro pense, sinta e julgue segundo os nossos critérios. É substituir o encontro pela uniformização, a curiosidade pelo juízo, a reciprocidade pela tutela.

O moralismo contemporâneo herda essa inclinação. Já não conquista territórios; conquista narrativas. Já não impõe credos religiosos; impõe ortodoxias éticas. A cruz foi substituída por slogans civilizacionais, mas o gesto é semelhante: estamos certos, somos a luz, os outros são trevas que precisam de correção. Se recusam a correção, são declarados bárbaros, perigosos, indignos de respeito.

É neste contexto que um europeu, descendente de impérios e tráfico transatlântico de seres humanos, se sente à vontade para condenar moralmente qualquer contacto com culturas que não cumprem o catecismo da democracia liberal. Como se um banho de água benta histórico tivesse lavado crimes, omissões e cumplicidades, autorizando-nos a apontar o dedo sem olhar para o próprio espelho.

Cada ser é uma estrela: Crowley, Agostinho e a vocação criadora

Se a crítica ao moralismo ficar apenas na denúncia, ela tende a reproduzir o mesmo gesto que condena: troca-se uma ortodoxia por outra. O ponto é outro: recuperar uma gramática espiritual em que a diferença possa existir sem ser imediatamente julgada como impura.

Aleister Crowley escreveu que “cada homem e cada mulher é uma estrela”. Cada ser possui órbita própria, centro próprio, percurso irrepetível. Interferir cegamente nesse percurso é perturbar uma ordem que não compreendemos totalmente. No auge da Segunda Guerra Mundial, temendo que a sua nova religião fosse confundida com os fascismos emergentes, Crowley escreveu o Liber OZ, um texto curto que, no fundo, é uma declaração de direitos do indivíduo a viver a sua própria lei.

É aqui que a frase de Agostinho da Silva ganha uma ressonância particular: “O homem não nasceu para trabalhar, nasceu para criar.” À primeira vista, pode soar a romantismo ou provocação. Mas, lida em profundidade, toca no coração de muitas tradições espirituais: criar é atributo divino. O Criador é princípio gerador. Nas sociedades europeias pré-cristãs, a própria arte era vista como ato divino ou inspirado.

Se o homem nasce para criar, nasce para participar dessa qualidade. Nasce, num certo sentido, para ser Deus — não no sentido de dominar, mas de realizar plenamente a sua potência criadora. Cada indivíduo é chamado a encontrar a sua obra, a sua órbita, a sua nota única na sinfonia do real.

Nas antigas cosmologias, até os deuses estavam inseridos numa ordem maior. Sabiam que não eram absolutos. Ordem e caos coexistiam. Nenhuma identidade pretendia anular as restantes; nenhum deus podia reduzir todos os outros à condição de erro. O mundo era um drama de forças, não uma cruzada de puros contra impuros.

A verdadeira decadência

Talvez a decadência do Ocidente não esteja na perda de poder económico ou militar, mas na perda da consciência vertical. Reduzimos o humano à moral, e a moral à acusação. Esquecemo-nos de que a dignidade não nasce da pureza proclamada, mas da criação realizada. Uma cultura que prefere julgar gestos simbólicos a interrogar a própria arquitetura de poder já começou a perder a ligação ao que é mais alto.

Se cada ser humano é chamado a tornar-se criador, então sufocar o caminho do outro — seja por autoritarismo explícito, seja por moralismo sufocante — empobrece a própria comunidade. Ao exterminar a diferença, exterminamos novos caminhos. Ao matar a possibilidade do desvio, matamos a possibilidade do inesperado. Limitamo-nos a repetir padrões, até que sejamos, nós próprios, triturados pela rigidez dos nossos dogmas.

Ser “deus”, neste sentido, não é impor-se. É criar sem apagar a chama do outro. É reconhecer que a nossa órbita não esgota o céu, que a nossa moral não esgota o bem, que a nossa história não esgota o sentido.

E talvez seja nesse gesto silencioso — de deixar o outro existir, criar, errar e recomeçar, sem o reduzir a emblema de pureza ou decadência — mais do que em qualquer julgamento público, que se decide o destino espiritual de uma cultura.

Perguntas para reflexão: 
  • O moralismo contemporâneo é, no fundo, uma escatologia secular com nova liturgia e os mesmos reflexos de condenação?

  • É possível defender direitos humanos sem cair num universalismo tutelar que trata o outro como menor de idade moral?

  • A lente opressor/oprimido é inevitável e útil, ou já se cristalizou numa metafísica preguiçosa que dispensa pensar caso a caso?

  • O que se perde quando a ética (como acusação) substitui a cosmologia (ordem/caos, equilíbrio/desequilíbrio) como grelha total de interpretação do real?

  • “Cada ser é uma estrela” é compatível com vida política adulta, ou é necessariamente visto como ameaça por qualquer projecto que dependa de alinhamento, disciplina e ortodoxia?

  • Onde termina a crítica legítima e começa a excomunhão simbólica: o ponto em que já não se discute o acto, mas se destrói a pessoa como impura?

  • Quando transformamos gestos em sinais totais de virtude ou decadência, estamos a procurar justiça… ou a comprar superioridade moral a prestações, com o aplauso do nosso grupo?

  • Se a Europa ainda fala como tribunal universal, isso vem de consciência ética… ou de memória imperial mal digerida, reembalada como “valores”?

  • Quantas vezes a acusação moral é apenas uma forma elegante de não olhar para o espelho: crimes, omissões, cumplicidades, e a conveniência de se declarar purificado pela História?

  • E a pergunta que corta mais fundo: o que acontece à cultura que prefere julgar símbolos a interrogar a própria arquitectura de poder que produz esses símbolos?