Pode um concerto de Metal ser uma experiência mística?

Uma noite no Rio de Janeiro, um concerto dos Gutted Souls e uma pergunta que ficou a ecoar: pode um concerto de Metal ser uma experiência mística? Neste texto, parto do Heavy Beer Bar para pensar o Metal extremo como rito moderno, feito de corpo, comunidade, transe, ruído e entrega. Porque talvez o sagrado nem sempre venha em silêncio. Às vezes aparece de preto, com distorção, suor e uma bateria impossível.

GERAL / FUNDAMENTOS

Mário Caneira Martins

6/16/20266 min ler

Confesso que ando há cerca de um mês para escrever este texto, mas as vicissitudes da vida quiseram que só agora o conseguisse fazer. Durante uma temporada no Rio de Janeiro, onde tanto aprendi, foram-me dados a conhecer vários elementos da complexidade de se ser humano. Posso traduzi-los em alguns lugares: a Vila Mimosa, onde o desejo, a sobrevivência e a força do feminino se mostram sem os vernizes da moral pública; o Garage, mítico espaço do underground carioca; e o Heavy Beer Bar, onde assisti a um concerto dos Gutted Souls, banda de Brutal/Tech Death Metal que aconselho vivamente a acompanhar.

Fui levado pelo Gabriel Vieira, no dia do seu aniversário. E talvez haja algo de simbolicamente justo nisso: celebrar a vida no meio do ruído, da intensidade, da distorção e daquilo que, visto de fora, poderia parecer apenas caos.

Mas não escrevo este texto para fazer uma espécie de revisão instagramável da minha passagem pelo Rio de Janeiro. Não é esse o ponto. Escrevo porque aquela experiência, em especial o concerto, deixou-me uma pergunta que ainda hoje me acompanha: poderá um concerto de Metal, seja qual for o seu subgénero, ser considerado uma experiência mística?

Vindo eu de uma zona rural, onde géneros como o Hip-Hop, o Metal ou outras expressões musicais mais urbanas nem sempre eram tão acessíveis, tive, ainda assim, a sorte de crescer com pais de uma grande abrangência musical. Em casa, ouviu-se de tudo. Essa abertura fez com que nunca olhasse para a música como um território fechado.

Ainda assim, confesso que o meu contacto com o Metal era bastante limitado. O meu gosto ficava, sobretudo, por Marilyn Manson. Lembro-me até de, em tempos, quase aceitar o convite de um professor de Ciências para ir a Espanha assistir a um concerto dele, juntamente com outros colegas que também gostavam do cantor. Fora isso, pouco mais. O Metal era-me mais uma referência distante do que uma experiência vivida. Até ao dia em que aterrei em terras brasileiras.

A minha primeira reacção, ao chegar ao local e observar o comportamento dos presentes antes mesmo de o concerto começar, foi perceber que ali existia uma comunidade. E não uma comunidade homogénea, fechada, caricatural, como tantas vezes se imagina. Pelo contrário: havia pessoas de várias idades, vários estilos, várias origens e até famílias. Havia um espírito de pertença forte, mas sem aquela rigidez de quem guarda uma porta com ar de superioridade. Ao ponto de aceitarem um português rural, sem qualquer ligação real ao meio, como parte daquele momento.

E isso, por si só, já desmonta muita coisa. Desmonta a ideia preconceituosa de que certos ambientes são necessariamente perigosos, marginais ou moralmente decadentes. Imagino as beatas da aldeia, quando eu era miúdo, com o horror estampado no rosto se soubessem o que vi naquela noite. Cabelos compridos, guitarras violentas, vozes guturais, corpos em movimento, cerveja, suor, gritos. Sem falar nos outros locais supramencionado. O fim do mundo, portanto. Ou, pelo menos, o fim do mundo segundo a catequese do medo.

Mas eu vi outra coisa. Vi comunidade. Vi entrega. Vi um ritual.

Foi durante o concerto que algo me chamou profundamente a atenção. A reacção dos que assistiam na primeira fila, bem como a presença física e vocal do próprio vocalista, trouxeram-me à memória práticas místicas que conheço e admiro. Sou um apaixonado pelo sufismo, não apenas aquele praticado na Turquia, hoje muitas vezes transformado em espectáculo turístico e performativo, mas também por expressões mais intensas, como algumas práticas sufis tchetchenas, cujos vídeos circulam pela internet como memes, quase sempre sem que se perceba o que verdadeiramente ali está em causa.

E os paralelos, ainda que não sejam equivalências, são difíceis de ignorar. O abanar repetido da cabeça, muitas vezes em círculo. A entrega do corpo ao ritmo. A vocalização profunda, gutural, que exige técnica, respiração e controlo. A repetição sonora. A intensidade colectiva. A dissolução momentânea do indivíduo numa massa humana que vibra ao mesmo tempo. Tudo isto me pareceu tocar mecanismos antigos, muito anteriores à própria ideia moderna de concerto.

Não estou a dizer que um concerto de Metal seja o mesmo que uma prática sufi. Seria absurdo e injusto para ambos os mundos. Mas há, em certas experiências humanas, uma zona comum: o corpo levado ao limite para abrir uma porta. Uma porta interior, simbólica, emocional, espiritual ou simplesmente demasiado humana para caber numa categoria limpa.

Nesse sentido, também poderíamos pensar noutras expressões: a ciranda, os rituais de roda, as danças de transe, certas práticas carnavalescas ou até as máscaras tradicionais que percorrem várias regiões da Europa entre o Natal e o Carnaval. Nessas manifestações, o corpo é sacudido, deformado, coberto, lançado ao excesso. Há sempre qualquer coisa de animal, de ancestral, de libertador. Como se a civilização, de tempos a tempos, precisasse de abrir uma fenda para que o instinto pudesse respirar.

O mosh pit, visto de fora, parece violência. Mas, visto de dentro, pode ser outra coisa: uma desordem ritualizada. Uma batalha sem inimigo. Uma guerra simbólica onde ninguém deve ficar caído. Há choque, sim. Há impacto. Há agressividade. Mas também há regra, cuidado e pertença. Quem cai é levantado. Quem entra aceita o jogo. O corpo torna-se linguagem. O empurrão torna-se comunhão. O caos, afinal, tem uma ética própria.

E talvez seja isso que tanto assuste quem observa de fora. Não o perigo real, mas a liberdade. A liberdade de gritar, de suar, de bater com a cabeça, de deformar a voz, de abandonar por instantes a postura domesticada que a sociedade exige de nós. Porque a sociedade contemporânea gosta muito de corpos sentados, limpos, produtivos e silenciosos. Corpos que consomem sem incomodar. Corpos que trabalham, obedecem, publicam fotografias bonitas e sorriem com moderação. Um concerto de Metal extremo é o oposto disso. É corpo em excesso. É som em excesso. É presença em excesso. E talvez por isso seja tão necessário.

A pergunta, então, regressa: pode um concerto de Metal ser considerado uma experiência mística?Para mim, a resposta é clara: sim. Não apenas pode, como deve.

Mas convém distinguir as coisas. Uma experiência religiosa depende, muitas vezes, de doutrina, crença, instituição, dogma, divindade ou liturgia formal. Uma experiência mística, por outro lado, pode acontecer quando o indivíduo se ultrapassa a si mesmo; quando sente que a sua identidade habitual se dissolve por instantes; quando o corpo, o som, o ritmo e a comunidade produzem uma sensação de intensidade que já não é apenas entretenimento.

No Heavy Beer Bar, naquela noite, não vi apenas uma banda a tocar. Vi um oficiante diante de uma assembleia. Vi uma comunidade reunida em torno do som. Vi corpos a entrarem numa espécie de transe profano. Vi o gutural transformar-se em oração sem Deus definido. Vi o ruído tornar-se linguagem. Vi a distorção abrir uma clareira.

Talvez o Metal extremo seja uma das últimas formas urbanas de êxtase colectivo permitidas a uma sociedade que já quase não sabe rezar com o corpo.

E digo isto sem romantizar em excesso. Não é preciso transformar todos os concertos em templos, nem todos os vocalistas em xamãs de camisola preta. Também não é preciso fingir que tudo o que é intenso é automaticamente espiritual. Há exageros, há vaidades, há teatralidade, há comércio, há bebedeira e há parvoíce, como em qualquer ambiente humano desde que o primeiro macaco descobriu que bater num tronco fazia som.

Mas, ainda assim, naquela noite, reconheci algo. Reconheci que o sagrado nem sempre aparece vestido de branco, com incenso e silêncio. Às vezes aparece de preto, com distorção, suor e uma bateria impossível. Às vezes não vem em forma de cântico suave, mas de grito. Às vezes não nos pede recolhimento, mas entrega. Às vezes não se ajoelha: abana a cabeça até o pensamento se calar.

E talvez seja precisamente aí que esteja a sua força. Porque, no fundo, o ser humano continua o mesmo. Mudam os instrumentos, os palcos, os nomes das bandas, os bares e as cidades. Mas permanece esta necessidade antiga de sair de si, de tocar os outros, de pertencer a algo, de atravessar o medo, o desejo, a morte simbólica e regressar diferente, ainda que só um pouco.

Naquela noite, no Rio de Janeiro, entre guitarras, vozes guturais e corpos em combustão, eu não assisti apenas a um concerto. Assisti a um rito moderno. E, como em todos os ritos verdadeiros, saí de lá com mais perguntas do que respostas.

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