Re)Começos: um lugar de gnose em caminho.

Este é o manifesto de arranque do Gnosésotérisme. Parto das perguntas fundamentais e de um percurso pessoal entre religião, crítica e experiência para chegar a uma proposta simples: estudar o esoterismo como fenómeno humano, simbólico e cultural. Aqui partilho traduções do francês, leituras e notas críticas, com honestidade, respeito pela tradição e vontade de errar e corrigir.

Mário Caneira Martins

2/26/20263 min ler

Todos nós partilhamos, no fundo, as mesmas perguntas. Quem somos. Para onde vamos. O que fazemos aqui. Se há vida para além desta. Desde sempre tentamos responder a isto. Uns pela filosofia, outros pela ciência, outros ainda pela fé, pela transcendência, por aquilo que sentimos que nos ultrapassa.

Aliás, não é por acaso que a palavra religião vem de religar. De tentar ligar-nos outra vez a algo maior do que nós.

Desde pequeno que a minha relação com a religião foi sempre ambígua. Fui criado no catolicismo, como tantos de nós, mas ao mesmo tempo cresci mergulhado na religiosidade popular: as histórias de almas, o mau-olhado, as promessas, as rezas, as crenças que muitos chamam superstição, mas que fazem parte da nossa cultura profunda. Lembro-me das brincadeiras de criança, das rezas inventadas, das pequenas “magias” da imaginação. Tudo isso ficou gravado, mesmo quando achamos que já passou.

Na adolescência passei por outros caminhos, inclusive por grupos como as Testemunhas de Jeová. Mais tarde, ao envolver-me na política, fui-me afastando cada vez mais da dimensão religiosa. A razão, a crítica, a militância ocuparam espaço. Mas a memória dessas vivências nunca desapareceu. Ficou em silêncio, à espera. Já no final dos meus vinte anos, aconteceu algo que marcou profundamente o meu percurso. Depois de anos a chorar a perda de um familiar próximo, cruzei-me com alguém com capacidades mediúnicas. Nesse convívio recebi mensagens dessa pessoa falecida. Uma delas dizia que eu voltaria a viver uma perda na família. No dia em que fiz 29 anos — curiosamente no meu retorno de Saturno — enterrei o meu pai.

Não conto isto como prova de nada. Não estou aqui para convencer ninguém. Conto como experiência. Como algo que me abalou, que me obrigou a parar e a perguntar-me, outra vez, o que é isto tudo, o que é a vida, o que é a morte, o que é afinal esta tal transcendência de que tanto se fala. A partir daí comecei a procurar mais a sério. Mergulhei em várias tradições: budismo, sufismo, hinduísmo, hermetismo, bruxaria popular, rosacrucianismo, alquimia, cristianismo, cabala, gnosticismo, iberoceltismo, druidismo, politeísmos diversos. Estudei bastante. Pratiquei menos do que gostaria. Li, ouvi, questionei, duvidei. Muito.

Nesse caminho conheci Allan Trindade, líder de uma comunidade de Kimbanda no Rio de Janeiro. As nossas conversas foram decisivas. Não falávamos apenas de espiritualidade, mas também de cultura, de história, de etnografia, de psicologia social, de vida concreta. A espiritualidade deixou de ser apenas crença abstrata e passou a ser também fenómeno humano, social, simbólico. O nome dele surgirá aqui mais vezes, porque faz parte do meu percurso e tenho honra em reconhecê-lo.

E é precisamente por tudo isto que este espaço existe. Este blog nasce como um caderno público de estudo e reflexão sobre aquilo a que chamamos esoterismo. Um lugar para pensar em voz alta, para analisar, confrontar ideias, ligar pontos, errar, corrigir, voltar atrás. Não me coloco como mestre de nada. Coloco-me como alguém em processo, como alguém que continua a aprender.

O nome Gnosésotérisme surgiu inicialmente num contexto de numerologia cabalística, quando pensei em criar um espaço digital ligado a esse trabalho. Procurava um nome com ressonância simbólica, ligado aos números 7 e 9, e, vivendo em França, optei pelo francês. Mas com o tempo o nome ganhou outro peso.

Gnose é conhecimento. Conhecimento interior. Esoterismo é o saber simbólico, reservado, profundo.

Este espaço é, para mim, a tentativa de unir as duas coisas. Não como fuga da realidade, não como fantasia, mas como forma de a compreender melhor, com mais camadas, mais profundidade, mais honestidade.

Aqui partilharei estudos, reflexões, leituras, dúvidas, descobertas e também traduções de textos do francês para português, sobretudo nas áreas do esoterismo, da espiritualidade, da filosofia e da cultura simbólica. Muitos desses textos quase não circulam em português, e acredito que vale a pena trazê-los para a nossa língua.

Este não é um espaço de certezas absolutas, nem de respostas prontas. Não prometo iluminação, nem verdades finais. Prometo trabalho, estudo, espírito crítico e respeito pela tradição. Prometo errar e corrigir. Pensar e repensar.

Se chegaste até aqui, és bem-vindo. Se discordares, melhor ainda: que isso nos obrigue a pensar. Que este seja um lugar vivo. Imperfeito. Em construção. Um lugar de gnose em caminho.