Um Zé (Ninguém que nunca será) Pelintra
Texto pessoal sobre espiritualidade, ética e manipulação. Não é um ataque a uma tradição espiritual, mas uma defesa do seu sentido mais profundo.
GERAL / FUNDAMENTOSBRUXARIA POPULAR E RELIGIOSIDADE POPULAR
Mário Caneira Martins
6/21/20266 min ler
Escrevo-vos hoje talvez o texto mais pessoal que alguma vez escrevi. E escrevo-o não apenas como desabafo, mas como chamada de atenção e alerta para quem, como eu, caiu nas malhas de uma das experiências mais difíceis da vida humana: uma relação — seja ela amorosa, espiritual, intelectual ou afectiva — marcada pela manipulação.
E, neste caso, mesmo que indirectamente, a espiritualidade também entra na história. O que torna tudo mais sensível. Mais complexo. E, por isso mesmo, mais urgente. Porque talvez esteja na hora de a sociedade civil olhar para a espiritualidade com outros olhos. Não apenas com olhos de crença, fascínio ou rejeição. Mas com olhos de ética.
A falange dos Malandros, nas religiões de matriz africana no Brasil, é frequentemente associada à chamada linha de Esquerda. Isto é, a entidades que não se moldam facilmente aos valores morais dominantes, nem aos costumes vigentes das sociedades em que viveram ou em que hoje são cultuadas.
Como já referi num vídeo que publiquei na minha conta pessoal de Instagram, a Malandragem é geralmente associada à cultura urbana e boémia. Pode ser vista, de forma positiva, como resiliência, criatividade e capacidade de sobreviver à adversidade. Mas também possui uma sombra: a da vadiagem, da desonestidade, da fuga constante à responsabilidade.
Não sou grande apreciador do termo “evolução”, porque, no contexto da espiritualidade moderna, ele vem muitas vezes carregado de sentidos herdados do Espiritismo e de uma ideia necessariamente positiva de progresso. O étimo da palavra não obriga a isso. Ainda assim, vou usá-lo aqui.
A espiritualidade deve servir para fazer o ser humano evoluir. Ou seja: modificar-se. Sair da sua zona de conforto. Caminhar o seu caminho. Cortar padrões herdados do contexto familiar, social e afectivo. Superar-se, sim, mas de forma ética. Porque sem ética, a espiritualidade torna-se apenas vaidade com incenso. Nesta leitura, a Malandragem pode ser importante.
Ela recorda-nos que nem todos os códigos morais são justos. Que há normas sociais feitas para domesticar, prender, humilhar ou silenciar. Mas também nos recorda uma coisa essencial: podemos prescindir de certos códigos morais sem perder o código ético. A isso talvez possamos chamar honra.
A Malandragem, quando bem compreendida, ensina-nos a contornar obstáculos com inteligência, criatividade e jogo de cintura. Ensina-nos a ler o mundo. A perceber os becos. A sobreviver aos sistemas que tantas vezes esmagam quem nasce fora dos lugares de poder. Mas há uma linha.
E essa linha separa a astúcia da manipulação. A sobrevivência da mentira. A liberdade da irresponsabilidade. A Malandragem sem carácter é Vagabundagem, como diria um grande nome da Malandragem carioca.
Ao longo do meu percurso, encontrei alguém que dizia caminhar com esta falange. Alguém que apresentava a sua prática espiritual como uma forma de quebrar ciclos familiares, transformar padrões herdados e, um dia, tornar-se também parte dessa linha no plano pós-vida. Falava de ética. Falava de família. Falava de protecção. Falava de honra.
Defendia, em discurso, posições duras sobre infidelidade, lealdade e responsabilidade afectiva. Apresentava-se como alguém com um código moral e espiritual muito firme, quase inquebrável.
E eu confesso: deslumbrei-me. Não apenas pela pessoa, mas pelo discurso. Pela construção. Pela forma como espiritualidade, inteligência, dor, mistério e promessa de profundidade pareciam juntar-se num só corpo. E, nesse deslumbramento, baixei a guarda.
Com o tempo, as conversas foram-se aprofundando. Aquilo que começou como troca intelectual e espiritual começou a agitar algo mais. Ao ponto de eu sentir necessidade de verificar, no concreto, se aquilo era apenas fascínio ou se havia ali algo mais sério. Acontece que, depois de muito tempo de conversa, e apenas após um episódio de ciúme da minha parte, essa pessoa me revelou que estava envolvida com alguém casado. Disse-me também que essa relação não estaria bem, marcada por traições e episódios de violência, mas que continuava por causa dos “bons momentos” vividos. E mais: justificava essa ligação como algo espiritual, como encontro de almas.
Curiosamente, algo semelhante já tinha escrito sobre nós. Mas, no meu caso, acabou por dizer que aquilo que sentia por mim era apenas intelectual. Numa discussão posterior, depois de eu me afastar fisicamente, a conversa passou para a tentativa de reorganizar os factos. Foi-me sugerido que a culpa era minha, por não ter sido honesto quanto ao motivo da minha ida. Como se o centro do problema fosse a minha expectativa, e não a ocultação de uma realidade afectiva que mudava completamente o sentido de tudo.
O que me marcou não foi apenas a revelação. Foi a inversão. Foi a tentativa de me fazer sentir culpado por uma situação que eu não tinha criado sozinho. Foi o uso da ambiguidade, da espiritualidade, da intimidade emocional e da palavra “amizade” como campo movediço.
E houve frases que ficaram: “Eu amo-te à minha maneira.” “Não sei se estás a dizer isso porque és assim ou porque estás transtornado.” “Se tu perdeste um grande amigo, eu também perdi.”
E, talvez a mais reveladora de todas, quando me afastei: “O que é que os outros vão dizer?”
Curiosamente, ou talvez não, mesmo nesse momento, ainda arranjei uma desculpa para proteger essa pessoa. É aqui que a manipulação mostra a sua face mais cruel. Não quando o outro mente apenas. Mas quando nos leva a defender a própria mentira. Quando nos faz pedir desculpa por termos sido feridos. Quando nos convence de que a nossa dor é exagero, a nossa percepção é confusão, e a nossa reacção é o verdadeiro problema.
Compreendo que, em certos contextos, as relações humanas sejam complexas. Compreendo que ninguém é perfeito. Compreendo que todos carregamos feridas, contradições, medos, desejos e zonas de sombra. Mas há uma diferença entre ser humano e usar a própria sombra como desculpa permanente. Há uma diferença entre ter feridas e ferir os outros em nome delas. Há uma diferença entre Malandragem espiritual e manipulação afectiva. E talvez seja aqui que este texto encontra o seu centro.
A Malandragem, enquanto força espiritual, não pode ser reduzida ao engano. Não pode ser usada como desculpa para mentir, seduzir, esconder, inverter culpas ou brincar com a vulnerabilidade alheia. Se há uma sabedoria na figura do Malandro, ela não está na capacidade de usar os outros. Está na capacidade de sobreviver sem vender a própria alma. Está na alegria diante da adversidade. Na inteligência diante do sistema. Na dança diante da queda. Na honra que permanece mesmo quando a moral social já não serve. Por isso, talvez o problema nunca tenha sido a Malandragem.
Talvez o problema seja sempre o mesmo: pessoas sem ética a vestirem-se com palavras grandes. Espiritualidade. Alma. Destino. Família. Honra. Protecção.
Quando, no fundo, o que existe é apenas uma velha habilidade humana: manipular o outro para não ter de se responsabilizar por si mesmo. E é por isso que escrevo. Não para atacar uma religião. Não para atacar uma falange. Não para transformar uma experiência pessoal numa sentença contra uma tradição espiritual.
Pelo contrário. Escrevo porque respeito demasiado a espiritualidade para aceitar que ela seja usada como teatro de manipulação. Escrevo porque há pessoas vulneráveis que entram nestes espaços à procura de sentido, cura, pertença, amor, direcção — e encontram, por vezes, pessoas que sabem usar a linguagem do sagrado para alimentar os seus próprios jogos.
E isso precisa de ser dito. Porque nem todo aquele que fala de entidades tem caminho. Nem todo aquele que fala de honra tem carácter. Nem todo aquele que fala de família sabe proteger alguém. Nem todo aquele que fala de Malandragem é malandro no sentido sagrado da palavra. Alguns são apenas espertos. E há uma diferença enorme entre um Malandro e um chico-esperto com discurso espiritual.
Por isso o título deste texto. Um Zé Ninguém que nunca será Zé Pelintra. Confesso que o que ainda mais me custa é o respeito intelectual que tinha por essa pessoa, perdido pelas suas próprias atitudes. Alguém que tanto criticava outros segmentos da espiritualidade e da religião pela sua hipocrisia acabou por revelar precisamente aquilo que dizia combater. E custa também pelo símbolo. Porque Zé Pelintra, enquanto símbolo, não é desculpa para falta de ética. É lembrança de que a rua tem código. De que a liberdade tem preço. De que a alegria não dispensa responsabilidade. E de que a verdadeira Malandragem nunca precisou destruir alguém para se sentir poderosa.
Quanto a mim, um dia destes voltarei à Lapa, desta vez sozinho, porque mais vale sozinho do que mal acompanhado. E darei uma latinha de cerveja ao Zé, mais uns tremoços, para agradecer o facto de me ter ensinado uma das mais difíceis lições de vida: que, no mundo, há muito Vagabundo disfarçado de Malandro.
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